Negócio incentiva empreendedorismo nas periferias de SP


João Luiz Guedes sempre acreditou na possibilidade de ressignificar o empreendedorismo para além da busca por renda para subsistência. Morador de uma região periférica na Zona Leste de São Paulo, onde nasceu e cresceu, ele acredita no potencial inexplorado de negócios que vêm dessas regiões, especialmente quando o assunto é transformação social.

Profissional de audiovisual, ele tem dedicado os últimos anos, porém, a um negócio com propósito que vai bem além das telas: a Emperifa, cuja missão é auxiliar empreendedores e pequenos negócios das periferias a se desenvolver e crescer.

Fundada há sete anos, a empresa combina educação, capacitação e impacto social à lógica da economia criativa, conectando empreendedores periféricos em uma grande rede de apoio que conta também com outras organizações e instituições. A inspiração para o negócio, segundo Guedes, veio de sua própria vivência.

“Cresci neste entorno de empreendedorismo por esforço. Meus tios tinham uma empresa, e minha mãe também costumava trabalhar horas vendendo coisas na rua a pé”, conta.

Mas, apesar da familiaridade com a rotina empreendedora desde a infância, a Emperifa nasce somente anos depois, fruto da parceria com Márcio Cardoso, com quem teve primeiro contato apenas na faculdade.

Ex-professor das disciplinas de empreendedorismo e relacionamento interpessoal no curso de audiovisual no Senac — do qual Guedes era aluno —, Márcio é hoje sócio da Emperifa.

“Sempre tive contato com movimentos de base onde morei, e queria fazer disso um propósito de vida, assim como o Márcio”, conta o fundador.

A transformação do negócio

Antes mesmo de se tornar um negócio formal, a Emperifa atuava como um tímido projeto social do terceiro setor, com workshops e oficinas para empreendedores que desejavam aprofundar conhecimentos em gestão. As exigências legais, porém, levaram os empreendedores a mudar os rumos do negócio.

“Paramos antes mesmo de concluir um estatuto. Foi quando percebemos que seríamos uma empresa ou uma ONG. Não os dois”, explica.

Chegar a um novo modelo de negócio dependeu, em boa medida, do contato direto com empresários daquela região — até o momento, a Emperifa focava na zona Leste de São Paulo.

No diálogo com empresas locais, os fundadores descobriam que era possível criar um hub de aceleração de outros negócios, com foco em conexão e em temas pouco abordados por outras iniciativas do gênero — mas que, ao mesmo tempo, são vitais para empreendimentos que nascem distantes dos centros urbanos, como liderança, negociação e gestão.

“Nunca demos cursos. Vimos outras lacunas a se preencher, com conteúdo e informação”, diz.

Guedes afirma que nas periferias, empreendedores carecem de conexões que resultem em acordos reais, e por isso o trabalho da Emperifa consiste em vivências mais práticas, e menos teóricas.

Por meio de uma rede, formada por empreendedores de diferentes regiões, a empresa promove encontros e troca de saberes, na mais tradicional modelagem de “networking” empresarial, mas com o objetivo de gerar negócios.

“É assim que incentivamos a economia criativa para além de encontros de networking. Um negócio se conecta a outro, cria parcerias, estabelece sociedade para acessar novos mercados, comprar coletivamente com fornecedores em comum. Aproximamos diferentes empreendedores periféricos uns dos outros, e eles de empresas”, diz.

A metodologia ganhou nome próprio: Reinpe (Rede Interempreendedora em Periferias), um modelo que já resultou no aumento das vendas, renda mensal, digitalização e melhorias operacionais dos negócios periféricos atendidos, segundo pesquisas da própria Emperifa.

A Emperifa está de olho em companhias interessadas em estreitar laços sociais com essas regiões, reforçando diretrizes ESG. Para isso, oferece um serviço específico de cocriação com parceiros, como fundações e ONGs, para a estruturação de projetos de impacto social nas periferias.

“Tanto o lado social, quanto o de governança com o voluntariado e a parte ambiental. Olhamos o conjunto de ações que podem ajudar essas empresas a terem impacto real com suas ações. A gente dialoga com elas e mostramos que apoiar projetos e empresas periféricas é um caminho para isso”, diz o fundador.

Somadas às ações e iniciativas, a Emperifa já impactou cerca de 2 mil empresários até o momento, sendo 90% mulheres.

“Hoje a Emperifa capacita e oferece apoio técnico para que pessoas e organizações possam atuar em rede, mas uma rede intraempreendedora que estimule a dignidade e inclusão produtiva de todos”, resume Guedes.

“Nossa visão de futuro é que a Emperifa seja reconhecida como autoridade nacional para atuação em rede e estamos confiantes de que chegaremos lá”.

Por Maria Clara Dias

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