Plano dos EUA para reconstrução de Gaza inclui área para 180 arranha-céus


“Temos um plano mestre… Não existe um Plano B”, disse Jared Kushner, genro do presidente americano Donald Trump, revelando sua visão para Gaza no pós-guerra diante de uma plateia no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.

Se o plano falhar, disse ele, será fácil atribuir a culpa. “Se o Hamas não se desmilitarizar, será isso que impedirá o povo de Gaza de alcançar suas aspirações”, acrescentou Kushner.

A apresentação ocorreu imediatamente após a assinatura da carta do Conselho de Paz do presidente dos EUA, representando a próxima etapa do plano de cessar-fogo acordado entre Israel e o Hamas em outubro de 2025.

Kushner, que desempenhou um papel fundamental na intermediação desse acordo, mostrou-se otimista, embora com uma omissão notável: a força internacional de estabilização, peça-chave do plano original de cessar-fogo de Trump para a Faixa de Gaza.

Turismo costeiro, um aeroporto e um porto

Um mapa de Gaza foi exibido em uma tela para mostrar como o território seria desenvolvido.

Uma zona de “turismo costeiro” se estenderia ao longo da orla marítima — com comprimento suficiente para até 180 arranha-céus, muitos dos quais provavelmente seriam destinados a hotéis.

Um porto foi mostrado na extremidade sudoeste de Gaza, junto à fronteira com o Egito, e imediatamente no interior, a partir do porto, o mapa mostrava a área destinada à construção de um aeroporto.

(A poucos quilômetros ao sul, não marcado no mapa, ficava um antigo aeroporto de Gaza, destruído há mais de 20 anos em ataques israelenses anteriores.)

Jared Kushner apresenta um plano para a Gaza pós-guerra após a cerimônia de assinatura do “Conselho da Paz” no Fórum Econômico Mundial em 22 de janeiro de 2026 em Davos, Suíça. • CNN

Kushner destacou dois projetos de desenvolvimento urbano, aos quais se referiu como Nova Rafah e Nova Gaza.

Em “Nova Rafah”, serão construídas mais de 100 mil unidades habitacionais permanentes, além de mais de 200 escolas e mais de 75 instalações médicas, afirmou. Ele expressou a esperança de que a construção seja concluída em dois ou três anos. Os trabalhos de remoção dos escombros já começaram, acrescentou.

“Nova Gaza” será um centro industrial, com o objetivo de alcançar pleno emprego, afirmou Kushner. Imagens geradas por computador sugerem uma metrópole com forte semelhança a cidades do Golfo Pérsico como Doha e Dubai, com acomodações e escritórios luxuosos à beira-mar.

Um plano para a reconstrução de Gaza é mostrado na tela depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, apresentou o “Conselho da Paz” no Fórum Econômico Mundial (WEF) em 22 de janeiro de 2026 em Davos, Suíça • Chip Somodevilla/Getty Images
Um plano para a reconstrução de Gaza é mostrado na tela depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, apresentou o “Conselho da Paz” no Fórum Econômico Mundial (WEF) em 22 de janeiro de 2026 em Davos, Suíça • Chip Somodevilla/Getty Images

Sem dúvida, a dimensão da tarefa é enorme, e a apresentação não deu detalhes sobre como tudo isso seria realizado. Dois anos de bombardeio israelense, em resposta ao ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, deixaram mais de 80% dos edifícios de Gaza danificados ou destruídos.

Os governos farão as primeiras contribuições, disse Kushner, com os anúncios iniciais a serem feitos em uma conferência em Washington nas próximas semanas.

Ele também fez um apelo ao setor privado, prometendo “oportunidades de investimento incríveis”.

“Sei que investir num lugar como este é um pouco arriscado, mas precisamos que vocês venham, tenham fé e invistam nas pessoas”, disse ele.

“Os palestinos enfrentam um plano para eliminar a sua própria presença, baseado na domesticação, subjugação e controle”, publicou Ramy Abdu, fundador palestino do grupo Euro-Mediterranean Human Rights Monitor, no X.

Atualmente, as forças militares israelenses estão presentes em pouco mais da metade do território, incluindo a cidade de Rafah. O plano original de 20 pontos, que garantiu o cessar-fogo e a libertação dos reféns em outubro, incluía detalhes sobre a criação de uma força internacional de estabilização (FIE) que facilitaria a retirada completa de Israel.

Até o momento, países terceiros têm se mostrado relutantes em se comprometer a integrar a força, e Israel, por sua vez, tem se oposto a possíveis participantes como a Turquia.

Kushner não fez qualquer menção a uma força internacional, enquanto a retirada de Israel foi reduzida a pouco mais do que uma frase em um dos slides da apresentação: “A desmilitarização de toda Gaza permite a retirada completa das Forças de Defesa de Israel para o perímetro de segurança”.

Desmilitarização do Hamas?

Kushner deixou claro que a tarefa de supervisionar a desmilitarização caberá ao novo comitê tecnocrático — o componente de campo da estrutura do Conselho de Paz de Trump, composto inteiramente por indicados palestinos.

Sem que isso aconteça, disse ele, “não podemos reconstruir”.

Trecho da apresentação de Jared Kushner sobre a Gaza pós-guerra após a cerimônia de assinatura do "Conselho da Paz" no Fórum Econômico Mundial em 22 de janeiro de 2026 em Davos, Suíça • CNN
Trecho da apresentação de Jared Kushner sobre a Gaza pós-guerra após a cerimônia de assinatura do “Conselho da Paz” no Fórum Econômico Mundial em 22 de janeiro de 2026 em Davos, Suíça • CNN

A apresentação afirmou que armas pesadas, túneis, infraestrutura militar, munições e instalações de produção serão destruídos, mas não especificou como o processo será realizado.

O Hamas costumava dizer que entregaria armas apenas a um exército palestino em um Estado palestino. Mais recentemente, Basem Naim, um alto funcionário do Hamas, falou em “congelar ou armazenar” suas armas no contexto do atual cessar-fogo.

E quanto à Autoridade Palestina e à UNRWA?

Discretamente, a AP (Autoridade Palestina) expressou preocupação com o fato de o novo comitê tecnocrático representar uma ameaça à sua centralidade na política palestina.

A referência de Kushner ao comitê como “um novo governo em Gaza” não deve ter dissipado essas preocupações, embora a Autoridade Palestina tenha sido mencionada em um slide como a eventual única autoridade civil em Gaza, “quando concluir suas reformas”.

Em contrapartida, a UNRWA (Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina) — que presta serviços públicos aos refugiados palestinos, que representam bem mais da metade da população de Gaza — parece estar fora da disputa.

“Estamos estudando as melhores práticas do mundo todo. Quem oferece a melhor educação? Quem oferece a melhor assistência médica? Não se trata de propriedade intelectual secreta”, disse Kushner, indicando um possível fim da atuação da UNRWA em Gaza.

Não é a primeira vez que o genro de Trump revela uma visão ambiciosa para Gaza.

Em 2019, ele organizou uma cúpula no Bahrein intitulada “Da Paz à Prosperidade”, que também idealizou “um movimentado centro comercial e turístico em Gaza e na Cisjordânia, onde empresas internacionais se reúnem e prosperam”.

Com uma quase total falta de vontade política em todos os setores, esses planos nunca saíram do papel.

Desta vez, o chefe do novo comitê tecnocrático de Gaza, Ali Shaath, afirmou em uma declaração em vídeo que é importante “transformar este momento em ação”.

Para esse fim, ele anunciou a abertura, na próxima semana, da passagem de Rafah entre Gaza e o Egito, sinalizando, segundo ele, que o enclave “não está mais fechado para o futuro e para o mundo”.

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