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Centenas de milhões de dólares que os Estados Unidos estão arrecadando com a venda de petróleo venezuelano estão sendo mantidos em custódia no Catar. É um caminho indireto que poderia acelerar o fluxo de dinheiro tão necessário para a Venezuela, mas também levanta questões sobre a transparência em torno desses fundos.

O governo Trump confirmou na quarta-feira (14) a primeira venda de petróleo venezuelano, que arrecadou US$ 500 milhões. Esta é apenas a primeira de inúmeras vendas que devem gerar bilhões de dólares nos próximos meses – e potencialmente anos.

Os fundos foram enviados para o Catar, em vez de serem mantidos em bancos americanos ou enviados diretamente para a Venezuela, de acordo com um ex-funcionário do governo familiarizado com o assunto. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse à Newsmax na noite de quarta-feira que o dinheiro da venda de petróleo começaria a entrar na Venezuela já na quinta-feira (15). Bancos venezuelanos começaram a anunciar a presença de dinheiro vivo, o que sugere que a receita do petróleo já chegou ao país, disseram duas fontes com conhecimento do sistema financeiro venezuelano.

A Venezuela foi alvo de sanções por governos ocidentais em todo o mundo, estando essencialmente isolada do sistema bancário global durante anos. Seu governo autoritário confiscou ativos petrolíferos nas últimas décadas, pelos quais empresas estrangeiras do setor energético exigiram indenização.

O presidente Donald Trump reclamou que a Venezuela está “roubando” ativos petrolíferos americanos no país, mas também afirmou que é importante que a receita das vendas de petróleo beneficie diretamente a Venezuela e impeça que aqueles com direitos sobre a receita petrolífera venezuelana tenham acesso ao dinheiro que os EUA estão gerando com essas vendas.

Na sexta-feira (9), Trump emitiu uma ordem executiva na qual afirmou que quaisquer tentativas de penhorar, bloquear ou tomar outras medidas judiciais para reivindicar esses fundos estão bloqueadas. A ordem declarou que, se os fundos não fossem liberados de tais entraves legais, isso “interferiria substancialmente em nossos esforços cruciais para garantir a estabilidade econômica e política na Venezuela”.

Depositar o dinheiro em uma conta no Catar – potencialmente fora do alcance de empresas e credores ocidentais que alegam ter créditos a receber – é uma das maneiras de atingir os objetivos do governo.

Garantir que os fundos beneficiem a Venezuela

O fato de os credores da Venezuela poderem atrasar esses pagamentos representaria um problema tanto para o país quanto para o governo Trump.

“É um problema muito sério. A Venezuela deve dinheiro a todos”, disse um especialista em relações exteriores e Venezuela, que falou sob condição de anonimato para poder se expressar livremente.

O especialista afirmou que o Catar há muito tempo atua como facilitador entre os Estados Unidos e o governo venezuelano, mesmo antes da prisão de Nicolás Maduro pelos EUA, o que abriu caminho para uma comunicação mais direta entre os dois governos.

Outros especialistas disseram à CNN que os bancos do Catar desempenharam um papel intermediário semelhante durante o governo Biden, quando permitiram que alguns fundos provenientes da venda de petróleo voltassem a fluir para o Irã durante um período de flexibilização das sanções contra aquele país.

Os bancos do Catar que detêm os fundos receberam instruções para leiloar o dinheiro para bancos venezuelanos, dando prioridade a alimentos, medicamentos e pequenas empresas, de acordo com Alejandro Grisanti, diretor fundador da Ecoanalítica, uma consultoria para a América Latina e do Sul que opera na Venezuela, entre outros países. Esse dinheiro será arrecadado pelo Banco Central da Venezuela e alocado de acordo com as exigências estabelecidas pelos Estados Unidos, afirmou Grisanti.

Bessent disse à Newsmax que a receita será usada para financiar as operações do governo da Venezuela, a segurança e o fornecimento de alimentos.

A Casa Branca não comentou diretamente sobre o envio de fundos para um banco no Catar antes de serem repassados ​​à Venezuela.

“Para que fique claro, a Venezuela está isolada do sistema bancário internacional há anos”, disse um funcionário do governo, falando sob condição de anonimato. “Enquanto o governo age rapidamente sob a direção do presidente Trump, estamos revisando os parâmetros e restrições legais existentes.”

Preocupações com a transparência

Mas a ordem executiva de Trump deveria ter evitado o problema dos credores bloquearem o fluxo de fundos necessários para a Venezuela, disse o especialista. O fato de os fundos estarem retidos no Catar não só os coloca ainda mais fora do alcance de contestações legais dos EUA contra essa ordem, como também permite menos transparência por parte dos EUA na movimentação do dinheiro.

“A menos que haja um plano público que defina a estrutura governamental para esse montante, quem terá o controle, quais serão os diversos controles anticorrupção e de combate à lavagem de dinheiro que serão implementados… isso está sendo configurado como uma espécie de fundo secreto”, disse o especialista que pediu anonimato. “É muito preocupante.”

Isso não sugere que o governo Trump vá tentar fazer algo nefasto com o dinheiro. Mas existem preocupações legítimas de que a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, use os fundos que retornam à Venezuela para continuar pagando os setores corruptos da estrutura governamental, incluindo grupos paramilitares e cartéis de drogas, para manter o controle do país, segundo o especialista.

Alguns críticos do governo Trump questionam a motivação de Trump para enviar o dinheiro ao Catar.

“Não há qualquer fundamento legal para um presidente criar uma conta offshore que ele controle para vender bens apreendidos pelos militares americanos”, disse a senadora Elizabeth Warren, democrata de Massachusetts, em um comentário à Semafor, agência de notícias que divulgou em primeira mão o envio do dinheiro para o Catar. “Essa é exatamente uma manobra que atrairia um político corrupto.”

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