Trump esvazia G20 e desmonta “herança” de Lula


Os Estados Unidos assumiram a presidência rotativa do G20, exercida pelo Brasil em 2024, com uma mudança radical na escolha dos temas que serão tratados como prioridade pelo grupo das maiores economias do planeta ao longo deste ano.

O governo Donald Trump reduziu para apenas três os grupos de trabalho acompanhados diretamente pelos “sherpas” (emissários pessoais dos líderes do G20): comércio, inovação e energia abundante.

Além de enxuta e esvaziada, a agenda de prioridades da Casa Branca tem alto potencial de impasse, com países apostando em dificuldade para um consenso que viabilize declarações conjuntas do grupo.

Segundo relatos feitos à CNN, um dos pontos de atrito é a abordagem dada pelos Estados Unidos para o grupo de “energia abundante”, que remete diretamente à maior oferta de petróleo no mundo, no caminho oposto da transição energética.

Outra preocupação é com a capacidade do grupo de comércio para produzir consensos mínimos em um contexto no qual a administração americana tem disparado medidas unilaterais e protecionistas.

A presidência dos Estados Unidos no G20 se segue a quatro ciclos, entre 2022 e 2025, de coordenação de países emergentes: Indonésia, Índia, Brasil e África do Sul.

Sob a liderança brasileira, houve 15 grupos de trabalho. A lista de temas abrangia sustentabilidade ambiental e climática, transição energética, desenvolvimento, economia digital (com discussões sobre regulação das redes sociais) e empoderamento das mulheres. Todos eles foram mantidos pela presidência sul-africana em 2025.

Além disso, o Brasil priorizou a montagem de uma Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, que ganhou a adesão de dezenas de países e se converteu em uma iniciativa com políticas públicas e estrutura própria.

Agora, sob gestão direta da Casa Branca, a “herança” dos quatro anos consecutivos de liderança dos países em desenvolvimento foi desconstruída.

Afora a diferença de prioridades, uma polêmica marcou a primeira reunião de “sherpas” no mês passado, em Washington. A África do Sul — nação que Trump acusa de estar patrocinando um “genocídio” contra brancos — foi impedida de participar das conversas.

Conforme relatos feitos à CNN, o Brasil se manifestou contra o veto aos sul-africanos. Integrantes do G20 como China, Austrália e Canadá também teriam protestado.

Reservadamente, apesar da discordância com os rumos do G20 neste ano, o governo brasileiro avalia que essa postura dos Estados Unidos não chega a ser surpreendente, por causa da forma como tem esvaziado fóruns multilaterais.

Na visão de Brasília, 2026 será uma espécie de “ocaso” do G20, um ano em que o grupo não terá relevância e perderá capacidade de discutir respostas coordenadas para desafios globais.

Por isso, apesar de ainda distante, os olhares da diplomacia brasileira se voltam para a presidência do G20 em 2027, que caberá ao Reino Unido.

A grande pergunta, no Itamaraty, é se os britânicos terão interesse e empenho suficientes para retomar a agenda pré-2026 ou se vão reconstruir o grupo das 20 maiores economias do planeta com outra pegada.

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