Profissionais de saúde iranianos e testemunhas oculares descreveram cenas angustiantes ao veículo de comunicação pró-reformas IranWire, diante da onda de protestos que já deixou 78 pessoas mortas no país.
Na sexta-feira (9), em Xiraz, equipes médicas atendiam uma mulher que havia sido baleada na cabeça. Ligada a um respirador, era possível ver manchas de sangue na lateral de sua cabeça. “Nunca vi cenas assim na minha vida”, diz um dos membros da equipe médica em um vídeo compartilhado com o IranWire. “Esses desavergonhados atiraram nela na cabeça e no pescoço. Vocês têm ideia de quantos pacientes temos até agora?”, relatou.
Uma médica em Nixapur disse que as forças de segurança atiraram contra manifestantes do alto de prédios na sexta-feira (9).
“Eles estão atirando de telhados e terraços. Não estão na rua, onde as pessoas podem ver e fugir”, diz ela em uma mensagem de áudio para o IranWire. “Eles chegam a atirar em pedestres comuns.”
A médica disse que uma família de seis pessoas que passava pelo local foi baleada, assim como a enfermeira de uma senhora idosa que estava voltando para casa. “Quantos mais vão morrer aqui?”, questionou ela.
Uma outra fonte médica confirmou que pelo menos seis pessoas foram mortas após um protesto em Teerã, na quinta-feira (8). Todas elas foram baleadas na cabeça e no pescoço, segundo gravações enviadas.
Um dia depois, os protestos na mesma área também foram recebidos com uma repressão violenta, com as forças de segurança atirando contra os manifestantes do alto de um prédio, segundo a fonte médica. Os manifestantes incendiaram um banco e tentaram tomar uma base pertencente à força paramilitar Basij, disse a fonte, acrescentando que um menino de 11 anos foi baleado e “provavelmente perderá um testículo”.
Após as forças de segurança terem aberto fogo contra pessoas em Najafabad na quinta-feira (8), os feridos foram levados para um hospital, de acordo com uma fonte médica local.
“As pessoas correram para o hospital para buscar os corpos de seus filhos, e os enterraram com as mesmas roupas”, disse um membro da equipe médica. Na cultura muçulmana iraniana, os corpos dos mortos são normalmente lavados e cobertos com um tecido de algodão branco antes do sepultamento.
Mohammad Lesanpezeshki, um médico de Chicago formado em Teerã, disse à CNN que seus amigos que trabalham em hospitais iranianos estão sobrecarregados, pois cada vez mais manifestantes ficam feridos na repressão do governo. Antes do bloqueio da internet interromper o contato, seus amigos lhe contaram o que viram.
“Um cirurgião ortopédico disse que havia vários corpos em seu pronto-socorro, pelo menos 30 pessoas que foram baleadas nos membros”, disse Lesanpezeshki.
O amigo contou a Lesanpezeshki que o hospital onde ele trabalhava em Teerã havia ficado sem sangue para transfusões e ligou para outro médico em uma unidade próxima para verificar se eles tinham algum disponível.
O médico do outro hospital estava “chorando ao telefone porque eles não têm estoque de sangue”, disse Lesanpezeshki.
Seus amigos também lhe contaram que o Hospital Oftalmológico Farabi, em Teerã, registrou um aumento repentino no número de pacientes com projéteis alojados nos olhos, cerca de 200 a 300 casos. Os amigos de Lesanpeseshki trabalhavam como médicos durante os protestos de Mahsa Amini no Irã, em 2022, e presenciaram lesões oculares semelhantes, embora em menor número.
Antes do bloqueio da internet na quinta-feira (8), outras fontes médicas disseram ao IranWire que pelo menos 500 pessoas procuraram hospitais em Teerã com lesões oculares.
